sexta-feira, 2 de novembro de 2018
quinta-feira, 1 de novembro de 2018
quarta-feira, 31 de outubro de 2018
Pai afasta de nós esse cálice
Música
Cálice de Chico Buarque
A música "Cálice" foi escrita em 1973 por
Chico Buarque e Gilberto Gil, sendo lançada apenas em 1978. Devido ao seu
conteúdo de denúncia e crítica social, foi censurada pela ditadura, sendo
liberada cinco anos depois. Apesar do desfazamento temporal, Chico gravou a
canção com Milton Nascimento no lugar de Gil (que tinha mudado de gravadora) e
decidiu incluir no seu álbum homônimo.
Capa do disco "Chico
Buarque" de 1978.
"Cálice" se tornou num dos mais famosos hinos
de resistência ao regime militar. Trata-se de uma canção de protesto que
ilustra, através de metáforas e duplos sentidos, a repressão e a violência do
governo autoritário.
Conheça também a análise
da música Construção de Chico Buarque.
Música e letra
Cálice
Pai,
afasta de mim esse cálice
Pai,
afasta de mim esse cálice
Pai,
afasta de mim esse cálice
De vinho
tinto de sangue
Pai,
afasta de mim esse cálice
Pai,
afasta de mim esse cálice
Pai,
afasta de mim esse cálice
De vinho
tinto de sangue
Como
beber dessa bebida amarga
Tragar a
dor, engolir a labuta
Mesmo
calada a boca, resta o peito
Silêncio
na cidade não se escuta
De que me
vale ser filho da santa
Melhor
seria ser filho da outra
Outra
realidade menos morta
Tanta
mentira, tanta força bruta
Pai,
afasta de mim esse cálice
Pai,
afasta de mim esse cálice
Pai,
afasta de mim esse cálice
De vinho
tinto de sangue
Como é
difícil acordar calado
Se na
calada da noite eu me dano
Quero
lançar um grito desumano
Que é uma
maneira de ser escutado
Esse
silêncio todo me atordoa
Atordoado
eu permaneço atento
Na
arquibancada pra a qualquer momento
Ver
emergir o monstro da lagoa
Pai,
afasta de mim esse cálice
Pai,
afasta de mim esse cálice
Pai,
afasta de mim esse cálice
De vinho
tinto de sangue
De muito
gorda a porca já não anda
De muito
usada a faca já não corta
Como é
difícil, pai, abrir a porta
Essa
palavra presa na garganta
Esse
pileque homérico no mundo
De que
adianta ter boa vontade
Mesmo
calado o peito, resta a cuca
Dos
bêbados do centro da cidade
Pai,
afasta de mim esse cálice
Pai,
afasta de mim esse cálice
Pai,
afasta de mim esse cálice
De vinho
tinto de sangue
Talvez o
mundo não seja pequeno
Nem seja
a vida um fato consumado
Quero
inventar o meu próprio pecado
Quero
morrer do meu próprio veneno
Quero
perder de vez tua cabeça
Minha
cabeça perder teu juízo
Quero
cheirar fumaça de óleo diesel
Me
embriagar até que alguém me esqueça
Análise da letra
Refrão
Pai,
afasta de mim esse cálice
Pai,
afasta de mim esse cálice
Pai,
afasta de mim esse cálice
De vinho
tinto de sangue
A música começa com a referência de uma passagem
bíblica: "Pai, se queres, afasta de mim este cálice" (Marcos
14:36). Lembrando Jesus antes do calvário, a citação convoca também as ideias
de perseguição, sofrimento e traição.
Usada como forma de pedir que algo ou alguém
permaneça longe de nós, a frase ganha um significado ainda mais forte quando
reparamos na semelhança de sonoridade entre "cálice" e
"cale-se". Como se suplicasse "Pai, afasta de mim esse cale-se",
o sujeito lírico pede o fim da censura, essa mordaça que o silencia.
Assim, o tema usa a paixão de Cristo como
analogia do tormento do povo brasileiro nas mãos de um regime repressor e
violento. Se, na Bíblia, o cálice estava repleto do sangue de Jesus, nesta
realidade, o sangue que transborda é o das vítimas torturadas e mortas pela
ditadura.
Primeira estrofe
Como
beber dessa bebida amarga
Tragar a
dor, engolir a labuta
Mesmo
calada a boca, resta o peito
Silêncio
na cidade não se escuta
De que me
vale ser filho da santa
Melhor
seria ser filho da outra
Outra
realidade menos morta
Tanta
mentira, tanta força bruta
Infiltrada em todos os aspectos da vida, a
repressão se fazia sentir, pairando no ar e atemorizando os indivíduos. O sujeito
expressa a sua dificuldade em beber essa "bebida amarga" que lhe
oferecem, "tragar a dor", ou seja, banalizar o seu martírio, aceitá-lo
como se fosse natural.
Refere também que tem que "engolir a
labuta", o trabalho pesado e mal remunerado, a exaustão que é obrigado a
aceitar calado, a opressão que já se tornou rotina.
No entanto, "mesmo calada a boca, resta o
peito" e tudo o que ele continua sentido, ainda que não possa se expressar
livremente.
Propaganda do regime militar.
Mantendo o imaginário religioso, o eu lírico se diz
"filho da santa" o que, neste contexto, podemos entender como a
pátria, retratada pelo regime como intocável, inquestionável, quase sagrada.
Ainda assim, e numa atitude desafiadora, afirma que preferia ser "filho da
outra".
Pela ausência de rima, podemos concluir que os
autores queriam incluir um palavrão mas foi necessário alterar a letra para não
chamar a atenção dos censores. A escolha de uma outra palavra que não rima deixa
implícito o sentido original.
Se demarcando totalmente do pensamento condicionado
pelo regime, o sujeito lírico declara sua vontade de ter nascido em "outra
realidade menos morta".
Queria viver sem ditadura, sem "mentira"
(como o suposto milagre econômico que o governo aclamava) e "força
bruta" (autoritarismo, violência policial, tortura).
Segunda estrofe
Como é
difícil acordar calado
Se na
calada da noite eu me dano
Quero
lançar um grito desumano
Que é uma
maneira de ser escutado
Esse
silêncio todo me atordoa
Atordoado
eu permaneço atento
Na
arquibancada pra a qualquer momento
Ver
emergir o monstro da lagoa
Nestes versos, vemos a luta interior do sujeito
poético para acordar em silêncio a cada dia, sabendo das violências que
aconteciam durante a noite. Sabendo que, mais cedo ou mais tarde, também se
tornaria vítima.
Chico faz alusão a um método bastante usado pela
polícia militar brasileira. Invadindo casas durante a noite, arrastava
"suspeitos" das suas camas, prendendo uns, matando outros, e fazendo
sumir os restantes.
Perante todo esse cenário de horror,
confessa o desejo de "lançar um grito desumano", resistir, combater,
manifestar sua raiva, na tentativa de "ser escutado".
Protesto pelo final da censura.
Apesar de "atordoado", declara que
permanece "atento", em estado de alerta, pronto para participar da
reação coletiva.
Sem poder fazer outra coisa, assiste passivamente
na "arquibancada", esperando, temendo ,"o monstro da lagoa".
A figura, própria do imaginário das histórias infantis, representa aquilo que
nos foi ensinado que devemos temer, servindo de metáfora para a ditadura.
"Monstro da lagoa" também era uma
expressão usada para referir os corpos que apareciam boiando nas águas do mar
ou de um rio.
Terceira estrofe
De muito
gorda a porca já não anda
De muito
usada a faca já não corta
Como é
difícil, pai, abrir a porta
Essa
palavra presa na garganta
Esse
pileque homérico no mundo
De que
adianta ter boa vontade
Mesmo
calado o peito, resta a cuca
Dos
bêbados do centro da cidade
Aqui, ganância é simbolizada pelo pecado
capital da gula, com a da porca gorda e inerte como metáfora de um governo
corrupto e incompetente que não consegue mais operar.
A brutalidade da polícia, transformada em
"faca", perde seu propósito pois está gasta de tanto ferir e "já
não corta", sua força vai desaparecendo, o poder vai enfraquecendo.
Homem pichando muro com mensagem
contra a ditadura.
Novamente, o sujeito narra sua luta quotidiana em
sair de casa, "abrir a porta", estar no mundo silenciado, com
"essa palavra presa na garganta". Além disso, podemos entender
"abrir a porta" como sinônimo de se libertar, nesse caso, através da
queda do regime. Numa leitura bíblica, é também símbolo de um novo tempo.
Mantendo o tema religioso, o eu lírico questiona
para que adianta "ter boa vontade", fazendo outra referência à
Bíblia. Convoca a passagem "Paz na terra aos homens de boa vontade",
lembrando que não tem paz nunca.
Apesar de ser forçado a reprimir palavras e
sentimentos, continua mantendo o pensamento crítico,
"resta a cuca". Mesmo quando deixamos de sentir, existem sempre as
mentes dos desajustados, os "bêbados do centro da cidade" que
continuam sonhando com uma vida melhor.
Quarta estrofe
Talvez o
mundo não seja pequeno
Nem seja
a vida um fato consumado
Quero
inventar o meu próprio pecado
Quero
morrer do meu próprio veneno
Quero
perder de vez tua cabeça
Minha
cabeça perder teu juízo
Quero
cheirar fumaça de óleo diesel
Me
embriagar até que alguém me esqueça
Contrastando com as anteriores, a última estrofe
traz um laivo de esperança nos versos iniciais, com a possibilidade do
mundo não se limitar apenas àquilo que o sujeito conhece.
Percebendo que sua vida não é "fato
consumado", que está em aberto e pode seguir diversas direções, o eu
lírico reclama seu direito sobre si mesmo.
Querendo inventar seu "próprio pecado" e
morrer do "próprio veneno", afirma a vontade de viver sempre segundo
as próprias regras, sem ter que acatar ordens ou moralismos de ninguém.
Para isso, tem que derrubar o sistema opressor, a
que se dirige, no desejo de cortar o mal pela raiz: "Quero perder de vez
tua cabeça".
Sonhando com a liberdade, demonstra a extrema necessidade
de pensar e se expressar livremente. Quer se reprogramar de tudo o que a
sociedade conservadora lhe ensinou e deixar de estar subjugado a ela
("perder teu juízo").
Protesto contra a violência do
regime.
Os dois versos finais fazem alusão direta a um dos
métodos de tortura usados pela ditadura militar (a inalação de óleo
diesel). Ilustram também a uma tática de resistência (fingir perder os sentidos
para que interrompessem essa tortura).
História e significado da música
"Cálice" foi escrita para ser apresentada
no show Phono 73 que reunia, em duplas, os maiores artistas da gravadora Phonogram.
Quando submetido ao crivo da censura, o tema foi reprovado.
Os artistas decidiram cantá-la, mesmo assim,
murmurando a melodia e repetindo apenas a palavra "cálice". Acabaram
sendo impedidos de cantar e o som dos seus microfones foi cortado.
Gilberto Gil partilhou com o público, muitos anos
depois, algumas informações sobre o contexto de criação da música, suas
metáforas e simbologias.
Chico e Gil se juntaram no Rio de Janeiro para
escrever a canção que deveriam apresentar, em dupla, no show. Músicos ligados à
contracultura e à resistência, partilhavam a mesma angústia perante um
Brasil imobilizado pelo poder militar.
Gil levou os versos iniciais da letra, que tinha
escrito na véspera, uma sexta-feira da Paixão. Partindo desta analogia para
descrever o suplício do povo brasileiro na ditadura, Chico continuou
escrevendo, povoando a música com referências da sua vida cotidiana.
O cantor esclarece que a "bebida amarga"
que a letra menciona é Fernet, uma bebida alcoólica italiana que Chico
costumava beber naquelas noites. A casa de Buarque ficava na Lagoa Rodrigues de
Freitas e os artistas ficavam na varanda, olhando as águas.
Esperavam ver emergir "o monstro da
lagoa": o poder repressivo que estava escondido mas pronto para atacar a
qualquer momento.
Conscientes do perigo que corriam e do clima
sufocante vivido no Brasil, Chico e Gil escreveram um hino panfletário
sustentando no jogo de palavras "cálice"/"cale-se".
Enquanto artistas e intelectuais de esquerda, usaram suas vozes para denunciar
a barbárie do autoritarismo.
Assim, no próprio título, a música faz alusão
aos dois meios de opressão da ditadura. Por um lado, a agressão física,
a tortura e a morte. Por outro, a ameaça psicológica, o medo, o controle do
discurso e, por conseguinte, das vidas do povo brasileiro.
Chico Buarque

Francisco Buarque de Hollanda (Rio de Janeiro, 19
de junho de 1944) é um músico, compositor, dramaturgo e escritor, apontado como
um dos grandes nomes da MPB (música popular brasileira). Autor de canções que
se opunham ao regime autoritário vigente (como a famosa "Apesar de
Você"), foi perseguido pela censura e pela polícia militar, acabando por
se exilar em Itália em 1969.
Quando regressou ao Brasil, continuou denunciando o
impacto social, econômico e cultural do totalitarismo, em músicas como
"Construção" (1971) e "Cálice" (1973).
terça-feira, 30 de outubro de 2018
Futuro 2 - Cristovam Buarque
Desculpem o atraso...
CONTINUANDO...
Divulgando...
Boa
tarde povo!
Dia
de Pensamento Inquieto! Continuamos com os textos anunciados na primeira
postagem. Os mesmos serão divididos em várias postagens pra facilitar a
leitura.
Obs.:
Lembrando que temos uma novidade! Se você estiver sem tempo para ler o texto, a
partir de agora disponibilizaremos um link para que você possa ouvir o texto
sintetizado em MP3 (Haverá alguns sotaques visto que são sintetizadores
estrangeiros)! O(s) Link(s) estará(ão) sempre entre o primeiro e o segundo
parágrafo do texto postado.
Degustem!
Se há esses três sustos, dois de observações e um da
lógica, da análise, podemos tirar algumas inferências de como será [seria] o
futuro. Mas agora, pela primeira vez, podemos imaginar futuros diferentes.
Um dos erros foi imaginar que só havia um
futuro e que ele era idílico. A meu ver temos diante de nós um futuro que continua o
percurso da técnica como sua razão de ser, e um outro futuro que vai ter a
ética como seu controle e motor. Mas, se o futuro técnico tem
futuro, então o futuro não morreu? Ele morreu por um detalhe. É que o futuro técnico, não por hipocrisia mas
por crença, acreditou na igualdade e nos direitos humanos universais. A
partir de agora é o momento da verdade. O futuro técnico, para continuar, vai ter de explicar, de
maneira radical, não apenas a desigualdade, mas a diferença entre os seres
humanos. E falo diferenças não no sentido que os antropólogos usam
hoje, ou seja, do direito de ser diferente dos outros. Para o direito uso a
palavra diversidade.
Os homens têm de
ser diversos entre eles. Não há dois iguais, mesmo dois carecas. Nós temos de ser diferentes nos valores,
nos objetivos, nos propósitos e no comportamento humanista.
Agora é a hora da verdade. Ou fazemos do planeta uma
imensa África do Sul, em que um bilhão vai ter os lucros da modernidade e do
futuro tal qual tem sido definido, enquanto quatro bilhões ficam esquecidos,
marginalizados, ou vamos inventar outro futuro! Aí pode-se dizer: mas logo a
África do Sul? Sim, digo África do Sul não sob o ponto de vista racial. Aquele
país está deixando de fazer a exclusão racial para fazer, como o Brasil, uma
exclusão social. A África do Sul vai se ‘brasilianizar’ e nós vamos nos vamos
nos ‘sul-africanizar’, não no sentido racial, mas de se explicitar: os pobres
não entram na praia, como muitos já dizem. Os pobres não entram nas cidades.
Isso, mais dia, menos dia, será feito. Os pobres não entram nos hospitais, nas
escolas, nos restaurantes, nas lojas de brinquedo. Isso já existe. Só que isso
não se escreve. Vai ter de escrever, para manter os privilégios. Os pobres
descobriram onde estão as coisas, e vão lá. Esse é o problema da Europa. Os
pobres vão para a Europa. Os pobres vão para Ipanema, assim como os negros
foram para os bairros na África do sul. Isso teve de ser interrompido. Não vejo outro caminho para continuar a
modernidade técnica do que um imenso apartheid, ao longo de todo o planeta. Não é o Primeiro Mundo contra o Terceiro, mas dos ricos
contra os pobres, estejam onde estiverem.
Claro que isso só
se manterá se se levar adiante, com rigidez, o projeto técnico, usando a
biotecnologia para fazer com que esses quatro bilhões de excluídos não apenas
sejam excluídos, mas sejam de fato diferentes. Isso já está sendo feito.
Uma pessoa que come direito, que faz ginástica, que é robotizada por causa de
operações, enxertos e transplantes, ponte de safena, vitamina, computador para
dinamizar sua capacidade criativa, é igual àqueles meninos da Somália ou aos
pobres das pequenas cidades brasileiras? Não. Pouco a pouco estamos construindo
não pobres e ricos, mas duas espécies de seres humanos. Aí sim, o
futuro terá sua chance de renascer, continuando o mesmo percurso de antes. Mas esse é um futuro
incompatível com todos os sonhos que vêm do Iluminismo. É preciso
lembrar que os maravilhosos mestres gregos que criaram tudo o que temos até
hoje de belo e ético, os nossos padrinhos gregos já praticavam isso. Eles eram democratas. Os escravos eram bárbaros
e não tinham de votar. Eles resolveram o problema, criando a diferença. O capitalismo e o
Iluminismo tentaram manter a desigualdade abolindo a diferença: eliminou-se a
escravidão, todos têm direitos iguais. Linda declaração das Nações
Unidas. As constituições de cada país são maravilhosas. Mas isso se esgotou.
Acho até que todos acreditavam que um dia todos seriam ricos e todos iriam
consumir imensamente. Mas isso é
impossível. A camada de ozônio reclama, as florestas reclamam, o planeta
reclama. Não
dá para aumentar o número de consumidores se não reduzirmos a quantidade de
consumo. Como não se quer fazê-lo, assumamos, é o que muitos vão
começar a dizer, e outros já praticam sem dizer, vamos retomar a diferença que
havia antes do Iluminismo. Vamos dizer
que há duas espécies de seres humanos.
Obviamente não é este o futuro que eu gostaria. Esse
futuro inventa um humanismo diferente. Para dizer a verdade, se esse cometa
chegar daqui a duzentos anos e encontrar um planeta em que os homens são
divididos através de uma construção, acho que era bom não tentarmos impedir que
ele se choque com a Terra, porque não mereceríamos continuar o projeto. Então,
vamos sonhar com o futuro novo. Acho que há possibilidade de um futuro novo,
em que a ética defina o propósito. Claro que se eu dissesse quais são
os valores dessa nova ética, eu estaria sem do autoritário e contrapondo-me ao
primeiro dos itens que devem compor um propósito utópico subordinado à ética,
que é a democracia com o direito ao uso da liberdade individual, todos eles,
inclusive empresarial. Desde que essa democracia e essa liberdade casem com outro
item de um projeto utópico em que não haja mais diferença entre os homens, em
que eliminemos os apartheids que existem, de raças, de classes, de sexos, de religiões,
etc.
Acabar com o apartheid não é voltar ao conceito
da igualdade plena da produção já supérflua, essa é a produção de bens básicos, e não tenho como fazer com que
todos recebam, pois tecnicamente é impossível, e eticamente não me sinto obrigado a distribuir o
supérfluo. Não posso é deixar
que o supérfluo seja produzido às custas da redução do básico. Não posso tolerar,
decentemente que esse básico não chegue a todos, o que já é possível, com o
conhecimento técnico que temos.
Então, eliminar o apartheid não é fazer com que todos
possam e devam consumir igualmente, mas fazer com que ninguém seja excluído do
básico. E se ninguém o for, pode haver desigualdade, mas não haverá diferença.
E quais são os básicos? Primeiro: alimentação, ninguém passar fome. Claro
que não é futuro ter uma Somália. Mas claro, que também não é futuro que o país
que lhe der a salvação seja o mesmo país que dá comida e tira tudo pela taxa de
juros devido à dívida externa. É uma hipocrisia, e é incrível que alguns
acreditam que ela carrega uma dose de verdade. Não quero, com isso, que deixem
de mandar comida para a Somália, mas que deixem de tirar comida dos
brasileiros, pois somos obrigados a exportar alimentos, um país com fome, para
pagar a dívida externa. Essa é a mesma hipocrisia quando se diz que não há apartheid,
quando sabemos que há. O primeiro aspecto básico, então, e
alimentação. Nada impede que este
planeta tenha todos alimentados.
O segundo é educação básica. Nada impede que possamos subir a média de escolaridade de um habitante
do planeta de cinco para dez anos. Talvez isso não possa ser feito de
imediato, mas devemos começar.
O terceiro item é acesso aos transportes urbanos, já que uma parte considerável da população,
neste futuro de hoje, mora nas cidades e tem de se deslocar para longas
distâncias, o que antigamente camponeses só faziam em dias de festa. Não é
moderno a pessoa não poder se utilizar do transporte e perder o trabalho por
isso. Além de alimentação, educação básica e acesso a transporte, a saúde. Não
pode ter futuro um país onde ainda há pessoas que morrem de cólera, de
lepra. Não é preciso fazer cirurgia plástica de rejuvenescimento em todo mundo,
transplantes, próteses, mas que pelo menos ninguém morra antes do tempo, de
doenças ridiculamente anacrônicas.
Finalmente, faz parte do fim do apartheid que cada família
tenha um lugar do qual não se lhe expulse. E que este lugar seja
limpo, saneado. Vejam como sou modesto nos meus sonhos. Não coloquei que todos
tenham uma casa, pois acho que a casa vai ser um esforço pessoal de cada
família, em acordos sociais e com a participação do governo. Nem colocaria a
casa como parte de um projeto, para o fim do apartheid já. Mas, que
ninguém expulse, pois se ninguém a expulsar, ela faz a casa.
Então, temos como primeiro
item da modernidade a democracia. O segundo
seria o fim do apartheid com
esses cinco objetivos. O terceiro seria
ter o mínimo de eficiência econômica para fazer também o supérfluo, pelos
vícios que o futuro tradicional já mostrou. O quarto seria que tudo isso deveria ser feito com equilíbrio ecológico.
Não há futuro se destruirmos a ecologia. E se houver futuro com a ecologia
destruída, graças a uma ciência superior, será um futuro, mesmo que viável,
mais pobre do que o futuro com o verde da floresta.
E quinto, não há
futuro sem integração internacional. Não a integração como meio, conforme
propõem os neoclássicos, mas como fim, como propósito.
Vejam que este futuro não tem nenhum obstáculo que impeça
sua construção. Não há nada que impeça que o planeta inteiro seja alfabetizado,
que todas as crianças tenham acesso ao ensino básico. Nada impede que todos
sejam alimentados. A produção de alimentos hoje é maior do que as necessidades
de alimento do mundo. Nada impede o saneamento e a integração, mantendo a
soberania de cada povo para manter a sua diversidade cultural. O que
impede é que o futuro tradicional, que morreu, ainda não dá lugar ao outro.
E esse futuro
que morreu pôs como algo obsoleto a ética, a capacidade do homem de saber onde
ele gostaria de chegar. Porque
os homens acreditaram que já sabiam onde queriam chegar: à sociedade da
modernidade técnica perfeita. Para que sonhar com o mundo, se já sabemos
que ele vai ser bom e sabemos como será, ou seja, cheio de botões para
apertarmos?
Esse mundo está morrendo, mas não para um bilhão que controla
tudo, e quer continuar. Ele está sendo um pouco inibido diante da
necessidade de explicitar o apartheid. Ele vai entrar num processo de pensamento inquieto, de uma psicanálise
geral desse planeta, de uma loucura global a discutir: continuamos a
modernidade técnica implantando o apartheid, acreditamos ainda que
algum dia todos terão tudo? Ou começamos a reorientar para uma outra
modernidade, um outro futuro que seria subordinado a valores éticos?
Desejo acreditar que encontraremos um caminho para esse apartheid
ético. E o futuro vai renascer, até porque vamos renascer no gosto pelo sonho
do futuro, e não apenas pela mecânica de construí-lo, como era até a década de
1980. Não havia mais sonhos. Voltará o
sonho, o prazer que perdemos, não apenas de copiar e fazer o futuro, mas de
inventá-lo também.
Não vai bastar ser engenheiro do futuro. Temos a chance
de ser também o seu arquiteto. Isso muda tudo, isso gera riqueza muito maior.
Disse que tentaria especular o berço onde esse futuro
poderia nascer. É óbvio que ele terá de
ser um futuro planetário. Não haverá futuro no sentido fechado, mas ele vai
nascer em algumas das sociedades existentes. Ele não vai surgir no ar, não
em uma reunião das Nações Unidas, mas no pensamento coletivo de alguma coletividade, e as
coletividades não são planetárias ainda. Na ECO 92 todos disseram
que o planeta se reuniu. Não é verdade. Reuniram-se 130 nações. Nenhum daqueles
chefes de Estado representava o planeta. No máximo, representavam os seus
compatriotas, os seus eleitores.
Se pegarmos as
diferentes nações do mundo veremos que há uma com mais chance de ser o berço
desse futuro, porque é uma que reflete melhor o retrato do conjunto do planeta.
Talvez seja um desvio de nascimento. Eu acho que pode ser o Brasil. Mas vou justificar
como não sendo um desvio de nascimento. Se
o futuro tem de mudar uma tendência, tem de ser no lugar onde duas coisas
aconteçam: a tendência tenha sido tentada; e ela não tenha dado certo.
Nos pequenos países africanos, a tendência não foi
tentada. Eles ainda têm direito a sonhar com o futuro técnico. Na Europa não
deu tão errado, do ponto de vista deles. É neste país, e em alguns outros, que
o futuro foi tentado e ao mesmo tempo deu errado como em nenhum outro. Nenhum país tentou
durante cem anos, com tanta sistemática, o crescimento econômico pelas vias da
técnica para aumentar o PIB per capita; nenhum tentou com tanto êxito, nem fracassou
tão rotundamente na sociedade que criou. Dificilmente, se eu fosse
parisiense, leria o livro de Bellamy percebendo os sustos que ele me provocou.
Um parisiense não tomaria esses sustos.
Os sustos acontecem no Brasil, mais do que em qualquer
outro país. Portanto, temos a chance de fazer isso. O que nos impede de fazê-lo é, primeiro, o vício que temos com a
modernidade técnica e depois o bloqueio ideológico de imaginar a possibilidade
da modernidade ética.
Derrubamos um presidente e lutamos para pôr os corruptos
na cadeia. Mas ainda não demos um passo na luta para pôr as crianças na escola.
Como se a ética fosse apenas a primeira parte, e não a segunda. Estamos com uma certa cegueira da ideologia
de duzentos anos. A ideologia daquele futuro que ainda está em nossas cabeças.
Não conseguimos avançar e ver um futuro diferente.
O meu otimismo é que se não vimos ainda um futuro
diferente, estamos tremendamente assustados com o futuro tradicional que, a meu
ver, morreu.
Para concluir, já que estamos falando em futuro, queria
dizer que dentro desses objetivos da utopia de uma ética guardei um ponto
deliberadamente.
É que não há futuro sem o profundo gosto pelo sentimento da aventura de
construí-lo. Uma das
tragédias deste século foi acreditarmos que o futuro aconteceria
espontaneamente. Bastava acordar, trabalhar e o PIB aumentaria. Perdemos o
gosto de tomar uma nave na Espanha e descobrir um mundo novo. Perdemos o gosto de inventar. A ida à
Lua não é um trabalho de conquistadores, mas de cientistas. Vejam a diferença. Perdemos
o gosto pela aventura. Porque ali não é a aventura de quem vai, é a aventura
de quem constrói. Perdemos a aventura da arquitetura e nos contentamos com a
aventura da engenharia, trabalhando com base em encomendas formuladas por
outros tempos e outros países. Essa dimensão da aventura está faltando em
muitos de nós. Perdemos o sentimento da
aventura de inventar um mundo novo.
Este pensamento inquieto não seria possível, como eu
disse, há duzentos anos. Mesmo hoje há menos chance de fazê-lo numa
universidade europeia ou americana [estadunidense], em Mali ou no Senegal do
que no Brasil, para não ser tão pernóstico, eu diria na América Latina. Aqui
temos mais chances.
Dentro deste continente, onde os dois sustos ocorrem,
nenhum outro lugar tem mais chance de despertar para esses sustos do que a
universidade. Pela sua multidisciplinaridade, pela obrigação de conviver com
filósofos, historiadores e técnicos que dominaram este século, sobretudo com os
‘teólogos’ deste século terrível que foram – ponho no passado – os economistas,
entre os quais me incluo.
Está na hora de
nos aventurarmos a inventar uma teologia nova. E quem não tiver o gosto
pela aventura vai ver este discurso como um trabalho de Stephen King, como um
conto de terror numa manhã de quinta-feira. Mas quem for capaz de dizer: talvez
haja chance de imaginar a aventura de construir um futuro alternativo,
terá a sorte de estar no planeta num final de século complicado, num país, Brasil,
num momento trágico e, portanto, rico (como toda tragédia se bem administrada)
de sua história, e numa universidade capaz de fazer um encontro sobre o
pensamento inquieto.
Obs.: Os negritos
itálicos são os destaques do texto original; os [ ], os negritos
e os negritos
vermelhos são destaques nossos.
SUGESTÕES
DE LEITURAS
O choque do futuro – Alvin
Toffler. Artenova, 1971.
A desordem do progresso -
Cristovam Buarque. Paz e Terra, 1990, RJ.
Cem páginas para o futuro –
Aurélio Peccei. Ed. UnB, 1981.
Um sentido do futuro – Jacob
Bronowski. Ed. UnB. 1981.
A grande jornada – Amilcar
Herrera. Paz e Terra, RJ.
sexta-feira, 19 de outubro de 2018
#Carta de Haddad aos evangélicos brasileiros
Divulgando de: http://www.pt.org.br/haddad-divulga-carta-ao-povo-evangelico/#.W8nY7AxCc5z.whatsapp
Haddad divulga carta ao povo evangélico
Haddad relembra que, desde as
eleições de 1989, o medo e a mentira são semeados entre o povo cristão contra
candidatos do PT, e pede justiça
16/10/2018 17h44 -
atualizado às 22h27
Ricardo Stuckert
Fernando Haddad
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O Senhor odeia os lábios mentirosos, mas se deleita com os que falam a
verdade. Provérbios 12:22
Quero me dirigir diretamente ao povo
evangélico neste momento tão decisivo da vida de nosso Brasil, cujo futuro será
decidido democraticamente nas urnas do próximo dia 28.
Para estar no segundo turno, tive que
vencer uma agressiva campanha baseada em mentiras, preconceitos e especulações
massivamente espalhadas pelo Whatsapp e outras redes sociais,
contra mim e minha família.
“Estas seis coisas o Senhor odeia, e
a sétima a sua alma abomina: olhos altivos, língua mentirosa, mãos que derramam
sangue inocente, o coração que maquina pensamentos perversos, pés que se
apressam a correr para o mal, a testemunha falsa que profere mentiras, e o que
semeia contendas entre irmãos.” (Provérbios 6:16-19)
Desde as eleições de 1989, o medo e a
mentira são semeados entre o povo cristão contra candidatos do PT. Comunismo, ideologia de gênero, aborto,
incesto, fechamento de Igrejas, perseguição aos fiéis, proibição do culto: tudo
o que atribuem ao meu futuro governo foi usado antes contra Lula e Dilma. As peças veiculadas, de baixo nível,
agridem a inteligência das pessoas de boa vontade, que não se movem pelo ódio e
pela descrença.
“Ó Deus, a quem louvo, não fiques
indiferente, pois homens ímpios e falsos, dizem calúnias contra mim, e falam
mentiras a meu respeito.” (Salmos 109:1-2). Que provas tenho a oferecer para
desmentir quem usa meios tão baixos para enganar, fraudar a vontade popular?
Minha vida, em primeiro lugar: sou
cristão, venho de família religiosa desde meu avô, que trouxe sua fé do Líbano
quando migrou para o Brasil para construir vida melhor para sua família. Sou
casado há 30 anos com a mesma mulher, Ana Estela, minha companheira de jornada
que criou comigo dois filhos, nos valores que aprendemos com nossos pais. Sou
professor, passaram por minhas mãos milhares de jovens com os quais aprendi e
ensinei meus sonhos de um Brasil digno e soberano.
Minha vida pública, em segundo lugar:
minha atuação, como Ministro da Educação e como Prefeito de São Paulo,
fala por mim. Abri as portas da educação para os mais pobres, das creches – nas
quais o governo federal passou a investir pesadamente em minha gestão – à
Universidade. Antes do Pro-Uni, do FIES sem
fiador, do ENEM, da criação de vagas em instituições públicas e gratuitas de
ensino e das cotas raciais, o ensino superior era
inacessível para jovens negros, trabalhadores e da periferia. Busquei humanizar
a metrópole que me foi confiada, buscando inovações para ampliar os direitos, à
moradia, à mobilidade
urbana, ao meio ambiente sadio,
à convivência fraterna.
Sempre contei, no MEC ou na Prefeitura de São
Paulo, com a parceria com todas as denominações religiosas. Tratei a
todas de forma igualitária. Os governos Lula e
Dilma, bem como nossos governos estaduais e municipais, sempre reconheceram
dois pilares do Estado democrático: é laico e, como tal, não privilegia nem
discrimina ninguém em razão de sua religiosidade. Nenhuma Igreja foi
perseguida, o direito de culto sempre foi assegurado, a liberdade de expressão
também.
Nenhum dos nossos governos encaminhou
ao Congresso leis inexistentes pelas quais nos atacam: a legalização do aborto,
o kit gay, a taxação de templos, a proibição de culto público, a escolha de
sexo pelas crianças e outras propostas, pelas quais nos acusam desde 1989,
nunca foram efetivadas em tantos anos de governo. Também não constam de meu
programa de governo.
“Acautelai-vos quanto aos falsos
profetas. Eles se aproximam de vós disfarçados de ovelhas, mas no seu íntimo
são como lobos devoradores. Pelos seus frutos os conhecereis. É possível alguém
colher uvas de um espinheiro ou figos das ervas daninhas? Assim sendo, toda
árvore boa produz bons frutos, mas a árvore ruim dá frutos ruins.” (Mateus
7:15-17).
Os frutos que quero legar ao Brasil
como Presidente são a justiça e
a paz. Emprego para milhões
de desempregados e desempregadas poderem sustentar com dignidade suas famílias.
Salário justo, com direitos que foram eliminados pelo atual governo e que serão
trazidos de volta com a anulação da reforma trabalhista,
e o direito à aposentadoria, ameaçado pela reforma da Previdência apoiada pelo atual governo e
meu adversário. “Aprendei a fazer o bem; procurai o que é justo; ajudai o
oprimido; fazei justiça ao órfão; tratai da causa das viúvas.” (Isaías
1:17)
Quero governar o Brasil com diálogo e
democracia, com a participação de todos e todas que se disponham a doar de seu
tempo e talentos na construção do bem comum. Um governo que promova a cultura da paz, que impeça a violência, que nunca use da tortura e da
guerra civil como bandeiras políticas. Que una novamente a Nação brasileira,
para que volte a ser vista com esperança pelos mais pobres e com respeito pela
comunidade internacional.
Apresento-me, pois, diante dos irmãos
e irmãs das mais variadas denominações cristãs, com a sinceridade e honestidade
que sempre presidiram minha vida e meus atos. A Deus, clamo como o salmista:
“guia-me com a tua verdade e ensina-me, pois tu és Deus, meu Salvador, e a
minha esperança está em ti o tempo todo.” (Salmos 25:5). E a vocês, peço
justiça, a justa apreciação de meus propósitos e o voto para concretizar essas
intenções num governo que traga o Brasil aos caminhos da justiça, da concórdia
e da paz.
Por Fernando
Haddad
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