quinta-feira, 18 de outubro de 2018

CED Gesner Teixeira, do Gama, usa experiência inédita para combater violência na escola

Divulgando de SINPRO DF!

A atividade inédita no Distrito Federal e no Brasil conquistou avanços nas relações interpessoais e suscitou melhores resultados no aprendizado dos(as) estudantes.

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quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Futuro 1 - Cristovam Buarque


Divulgando...
Boa tarde povo!
Dia de Pensamento Inquieto! Continuamos com os textos anunciados na primeira postagem. Os mesmos serão divididos em várias postagens pra facilitar a leitura.
Obs.: Lembrando que temos uma novidade! Se você estiver sem tempo para ler o texto, a partir de agora disponibilizaremos um link para que você possa ouvir o texto sintetizado em MP3 (Haverá alguns sotaques visto que são sintetizadores estrangeiros)! O(s) Link(s) estará(ão) sempre entre o primeiro e o segundo parágrafo do texto postado.
Degustem!


CONTINUANDO...

            Há um livro, de um crítico de arte, que se chama O choque do novo, em que ele mostra que todas as grandes invenções que temos hoje, as básicas, ocorreram entre 1885 e 1910. Todas. O fonógrafo, o telefone, o carro, a relatividade, os raios-X, tudo. Acho que foi aí que o futuro nasceu. O futuro nasceu nesse momento; ainda que fosse algo perceptível por poucos e não algo na consciência coletiva da sociedade. Mas ele nasceu aí. Se ele nasceu, ele teve um processo de evolução. Porém, o mais trágico é que, do jeito que ele nasceu, naquele período – e podemos localizar um lugar onde ele nasce para depois voltarmos a discutir o lugar -, ele nasceu nos EUA, ele nasceu na Europa, ele nasceu no Ocidente, com um conceito radical do tempo fluido como rio, e do tempo levando a uma sociedade melhor, mais eficiente, mais rica inclusive. Pois bem, se o tempo nasceu naquele momento, temos de lamentar e dizer que, aparentemente, o futuro também morreu no século XX. Se analisarmos o que aconteceu ao longo deste século, sobretudo ao longo dessas últimas décadas, vamos perceber que aquelas características que falei sofreram uma reversão. Por exemplo: a ideia de que a sobrevivência era cada vez mais fácil no futuro ficou prejudicada pelas próprias previsões feitas, entre outras, pelo grupo de Roma, que mostrou que havia limites ao crescimento. O futuro nada tinha a ver com aquele idílio que se imaginava no final do século, e neste século, se retirarmos o medo da guerra nuclear. Foram os anos de maior ebulição e crença no futuro. A partir da década de 1960, diversos fenômenos começam a nos levar a sentir que o futuro não era aquele; logo, não era o futuro, era apenas um tempo adiante. Se não havia desejo dele, já não era futuro no sentido que estou colocando aqui. Passou a haver medo do futuro. A partir das décadas de 1960 e 1970, há o medo do futuro. O prazer que se tinha no futuro diminuiu. A ficção científica (um dos grandes indicadores de como vemos o futuro), que, salvo 1984, só tinha livros que colocavam o futuro como idílio, passou a se dedicar ao terror. Hoje assistimos mais os filmes pelo terror do que pela imaginação do futuro, porque o futuro ficou assustador. Todo o futuro era visto como de paz, de tranquilidade. Hoje, temos uma violência crescente. Todos os sonhos dos utopistas, dos socialistas utópicos, dos socialistas científicos, dos capitalistas eram de que o mundo do futuro seria um mundo sem desigualdade social. Uma das bases do capitalismo é que o mercado tende a eliminar as desigualdades. A base fundamental do socialismo é acabar com as desigualdades. Quando analisamos o mundo de hoje, comparando com o mundo do começo do século, quando o futuro nasceu, percebemos que o sonho da igualdade morreu.
            A desigualdade entre uma pessoa de classe média hoje e um pobre é maior do que entre um rei no século XVII e um camponês. Não digo que um pobre hoje não está melhor do que um camponês, pois pelo menos quando consegue ir ao dentista existe anestesia, coisa que não havia naquela época. Mas, em compensação, o rei perdia dentes e os pobres já não perdem [tanto quanto o rei naquela época]. Não digo que era mais fácil para um camponês andar a pé do que para um pobre andar de ônibus. Mas, milhões de pessoas no mundo são obrigadas a andar a pé porque não podem pagar a passagem. Mas as classes média e alta têm automóvel, e os reis não tinham. Não vou dizer que os palácios dos reis eram piores do que as casas da classe média hoje. Mas a choupana dos pobres não é diferente das choupanas dos camponeses. E as casas das classes média e alta podem não ser maiores do que os palácios da época, mas têm mais facilidades. A desigualdade aumentou. Então, o medo aumentou, ressurgiu. A violência cresceu. A arte entrou no sentimento de esgotamento. O livro O choque do novo mostra a riqueza do final do século passado e uma certa pobreza em criatividade neste século. Segundo ele, nenhum outro final de século, nos últimos quinhentos anos, desde o Renascimento, teve tão poucas inovações nas artes quanto este.
            E não é só isso. O sonho do infinito crescimento morreu com a crise ecológica. Percebemos que, ou destruímos a ecologia para continuar a crescer ou diminuímos o crescimento para respeitar a ecologia. Nos costumes houve o fim de alguns dos sonhos do futuro. O erotismo livre, que foi uma das conquistas deste século, a diferença entre casamento, sexo e erotismo entra em choque com a crise provocada pela AIDS. Vejam que as duas categorias que mais sofriam no passado com as repressões sexuais, os homossexuais e as mulheres, são as que estão pagando o maior preço entre aquele grupo de risco por razões sexuais neste final de século com a nova doença.
            Então, aquele sonho diminuiu. A ideia de internacionalismo, que estava presente em todos os sonhos de futuro, também nos dá a sensação de que morreu. Era mais fácil entrar na França há dez anos do que hoje.
            As exigências para ser imigrante nos países ricos fazem com que seja quase impossível o enorme fluxo que havia no mundo. Se analisarmos o fluxo que houve, mesmo sob a forma de escravidão, nos séculos XVI a XIX; se analisarmos os fluxos migratórios no século XVII e no começo deste século, da Europa para as Américas, veremos que esse sonho de uma grande integração, de repente, está sendo cortado. Porque os países ricos procuram se proteger para evitar a invasão dos países pobres. Morreu, então, um dado fundamental do futuro, que era a mobilidade das pessoas deste planeta, entre as nações deste planeta, fazendo um mundo integrado e uma única nação. Mais ainda: a física, que trabalhou todo o tempo tirando a ideia do tempo circular e pondo a ideia do tempo fluido, a própria física descobre, no final do século, que o tempo é circular. Não mais em quatro estações, mas em vinte bilhões de anos.
            Mas descobre que o Universo se expande e se contrai. Não deixa de ser um tempo circular. A dimensão é maior do que pensam os textos budistas, é maior do que os textos astecas, é maior, obviamente, do que um camponês da Idade Média, mas não deixa de ser um ciclo. O homem tem de ser pessimista, porque, seja como for, em alguns bilhões de anos, haverá um encurtamento do Universo que se transformará num outro ovo cósmico. A física, hoje, é um indicador de que não há mais futuro eterno. Isso é fundamental, porque foi a física que tirou o otimismo da eternidade.
            Então chegamos ao final de um século que teve a grande aventura de fazer nascer e matar o futuro. Essa é a nossa realidade. Mas com um detalhe diferente: chegamos ao século com o futuro morto, mas com os homens vivos e percebendo isso.
            Pararíamos, porém, de forma incompleta o Pensamento Inquieto se não discutíssemos três coisas mais: a lógica da morte do futuro, as possibilidades de renascimento do futuro e o lugar onde ele pode renascer.
            Do ponto de vista da lógica, começam a existir sintomas do motivo pelo qual o futuro morreu. Li recentemente um livro que muito me impressionou: Daqui a cem anos. Foi escrito e, 1887 por um americano [estadunidense], Edward Bellamy, que decidiu fazer um livro sobre como seria o ano 2000. Ele errou em tudo! Errou porque foi incapaz de imaginar as maravilhas que a técnica criaria. Errou pela falta de visão, mas errou ainda mais por ser incapaz de perceber que o mundo não seria um paraíso. Errou por excesso de visão. Ele descreve um mundo sem desigualdades, com abundância, com um processo tão democrático que não seria preciso eleições, com organização plena, sem banqueiros – a primeira coisa que viu ser fundamental acabar -, sem exploração, enfim. Tudo seria perfeito socialmente. A única novidade técnica que ele imaginou foi que as pessoas poderiam ouvir música em casa, mesmo assim, pelo telefone. A orquestra tinha de estar tocando, e não dava para transmitir a grandes distâncias. Seriam necessárias quatro orquestras, pelo menos, numa cidade como Boston, onde ocorreu a história.
            Vejam como ele foi acanhado nas técnicas, e ousado na utopia. Aí está, talvez, a explicação da morte do futuro.
            Não é diferente do que Marx, sem fazer um romance, que também errou nesse sentido. Ou nós, os intérpretes de Marx, erramos!
            Acontece que nós, que temos a sorte de viver este momento, temos dois grandes sustos quando atentos ao que acontece no mundo, e comparando o tempo de hoje com o começo do século. O primeiro é um susto positivo: é inacreditável como foi possível esse animal esquisito, chamado homem, ter realizado o que realizou com o conhecimento que adquiriu em cem anos. Nenhum escritor de ficção científica do começo do século imaginou isso. O maior gênio de ficção científica, Júlio Verne, imaginou uma verdadeira geringonça que é um submarino. Ele falou em ir à Lua. Já viram o foguete que ele imaginou? Ele não imaginou que seria televisionado ao vivo, o que é mais importante de tudo. Até 1960 nenhum cientista chegou a pensar que isso fosse possível. Hoje, não só imagens da Lua são transmitidas ao vivo, mas tudo! Participei de um debate num auditório enorme em que Edgar Morin, um francês, em Paris, e nós, aqui, nos comunicávamos.
            Alguém poderia imaginar um transplante de coração? Isso hoje é assunto superado. Existe até um robozinho para limpar as veias. Existe também cirurgia para corrigir miopia. Alguém no começo do século poderia prever que haveria microfone, essa parafernália toda? Ninguém imaginaria isso!
            Este é um aspecto surpreendente que verificamos na leitura desse livro. O autor não imaginou nada. Ele imaginou em sua utopia, por exemplo, que não se precisaria de dinheiro, mas de cartão de crédito. Mas o cartão seria de papelão. Ele não imaginou plástico nem informática. Susto que realmente espanta. Mas tem outro susto: ninguém, no começo do século, imaginava que ia ser um desastre utópico o final do século. Os visionários do começo do século propunham para o ano 2000 um paraíso, de acordo com os padrões dos valores básicos do Humanismo: sem violência, sem desigualdade, sem medo do futuro. É o contrário do que vemos.
            Esses dois sustos juntam-se para propor uma lógica. Em algum momento deste século colocamos a técnica na frente da utopia. Achamos que o motor nos levaria a um destino bom. E o motor fez o caminho que lhe interessava, não conduziu os homens para onde eles queriam. Ao contrário, quando os homens estavam montados no motor, ele os levou para um desastre utópico.
            Isso daria, como lógica da morte do futuro, o fato de que pensamos na técnica, sonhamos com utopia, mas esquecemos dos valores éticos para regular as técnicas. Eu perguntaria: por que Marx não percebeu isso? [ponto a ser refletido: o que é isso que Marx não percebeu?] Por que esse Bellamy também não percebeu? Penso que eles não perceberam – e aí vai estar a morte do futuro, é aí que ele vai descobrir que está com algum problema -, não descobriram que as técnicas seriam usadas tanto para inventar novas máquinas quanto para inventar novos brinquedos de consumo. Bellamy errou porque não imaginou a ganância consumista dos homens. Por que havia abundância no mundo de Bellamy? Porque só havia comida e roupa. E para que mais? As máquinas mecanizadas gerariam comida e roupas suficientes, e livros, óculos e pequenas coisas básicas para todos. Mas quando, além de roupa e comida, temos que fazer aparelhos de videocassete, de Cd, automóvel – e a cada ano um modelo diferente – e milhões de novos produtos, acho que a técnica priorizou a dinâmica do consumo em vez de priorizar a dinâmica da liberdade. A liberdade das necessidades foi suplantada pela ampliação do consumo.
            Aí começamos a errar. A lógica, portanto, está em que nós, neste século em que aprendemos a dominar o mundo, perdemos a capacidade de dominar o uso do domínio do mundo. Nós passamos a ter técnicas para dominar o mundo, mas nós fomos manipulados pela ganância que nós tínhamos de manipular o mundo para aumentar o consumo, e não para outros valores. A morte do futuro, portanto, viria de um desvio humano, de uma prioridade subordinada à técnica, em vez de definir uma ética ou ter o sentimento de uma ética que dominasse a técnica. Esse foi o erro. Deixamos de definir o futuro. Neste século, acreditamos tanto no futuro que esquecemos de defini-lo. Nesse ponto continuamos tão primitivos quanto os milenaristas do judaísmo antigo e do cristianismo, que, no começo, de fato, já percebiam o tempo fluindo, até porque acreditavam na volta de Cristo. Mas o tempo fluía até o juízo final. Logo, não era o futuro. O juízo final não é o futuro, mas o esgotamento do tempo. É diferente.
            Então, deixamos de imaginar que o futuro poderia se administrado, que poderia ter definições, que para ser utópico tinha de ser definido com base em valores éticos. Se aceitamos essa ou outra proposta, acho que podemos começar a discutir o quarto ponto: depois do nascimento, depois da morte, depois do dia da lógica do futuro, o renascimento.
            Se eu concluísse a discussão agora, obviamente seria uma análise pessimista. Até porque eu, por um desvio qualquer, patológico ou genético, sou otimista.
            Então, estamos diante de um momento que propicia o renascimento. Eu sou otimista, mas tento não ser idiota. E a diferença entre o otimista e o idiota é que o idiota determina o prazo em que vai realizar um otimista dentro do mínimo de decência do uso do pensamento.
            Além disso, para ser otimista sem ser estúpido, no mundo de hoje, é preciso ser otimista imaginando uma mudança no propósito do mundo.
            Sou otimista porque vivemos, mais uma vez, a maravilha de uma encruzilhada do futuro da humanidade. E isso ocorreu pela última vez com clareza, explicitamente, no final do século XV, com o Renascimento. Depois, vivemos outra encruzilhada, mas não tão explícita apesar de muito dinâmica, com a Revolução Industrial, quando tomamos esse desvio que está aí. E chegamos a esse desvio, que não considero patológico nem intrínseco ao ser humano. Há autores, como Koestler, que colocam como patológico e inevitável o desastre da humanidade. Ele acha que a estrutura do cérebro tem um lado do sentimento onde deverá estar a ética e este não se desenvolve com a mesma velocidade que o lado da racionalidade, que desenvolve as técnicas. Ele acha que o homem sempre será mais capaz de fazer bombas atômicas do que de destruí-las. Porque fazê-las é um gesto da racionalidade, enquanto destruí-las é um gesto do coração. Ou, para não usar esta metáfora e passar ao nível científico, do lado do sentimento do cérebro.
            Acho que podemos controlar isso até pela dinâmica. Se estamos nesta encruzilhada, é possível que haja uma alternativa para o futuro. E é isso que eu gostaria de especular. Quais são as chances do futuro? A meu ver, estes dois sustos e o terceiro dessa lógica assustadora (de imaginar que está no avanço técnico a morte do futuro) e não como Marx imaginava, que estava no avanço técnico o futuro ilimitado. Marx, como Bellamy, é de um tempo em que não havia consumo em quantidade. Então, para eles era fácil imaginar a sociedade da abundância, porque atenderíamos às demandas, rapidamente, das coisas básicas. Mas quando se salta do básico para o supérfluo é ilimitada a ganância. Ninguém é ganancioso para comer demais. Pode-se se guloso, mas não ganancioso, pois a pessoa se empacha, como se diz em Pernambuco. Mas ninguém se empacha dos bens supérfluos.
            Marx não percebeu essa possibilidade.
CONTINUA NA PRÓXIMA QUARTA...
Obs.: Os negritos itálicos são os destaques do texto original; os [  ], os negritos e os negritos vermelhos são destaques nossos.





quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Futuro - Cristovam Buarque

Atrasados, mas aqui estamos!



GUETO DO PENSAMENTO INQUIETO
FUTURO
Cristovam Buarque – Economista, Professor da Universidade de Brasília, Coordenador do Doutorado Internacional em Economia Ecológica
O Pensamento Inquieto (Curso de Extensão Universitária a Distância). Organização de Clodomir de Souza Ferreira, João Antonio de Lima Esteves e Laura Maria Coutinho – Brasília: CEAD/Editora Universidade de Brasília, 1993. (pp. 79 a 92).

QUESTÕES PARA REFLEXÃO
O futuro não é apenas um conceito do tempo físico. O futuro é um sentimento do homem, que se tornou capaz de imaginá-lo a longo prazo e de agir para torná-lo real.
Inúmeras utopias previam um futuro idílico e maravilhoso para o mundo. A realidade atual oferece muito mais possibilidades de  um porvir assustador, marcado pela violência, pela desigualdade e pela destruição. O homem aprendeu a ter medo do futuro.
Neste texto, Cristóvam Buarque diz que “chegamos ao fim de um século que teve a grande aventura de fazer nascer e de matar o futuro”. Poderá o futuro renascer? Como poderemos recuperar o prazer de inventar o futuro? “Não há futuro para o homem sem um profundo gosto pela aventura de construí-lo”. O que pensamos nós, no Brasil, o eterno “país do futuro”?

            A notícia publicada nos jornais de que um cometa chamado Swifato está vindo em direção à Terra e que deverá chocar-se contra o planeta, em agosto do ano de 2126, gerou um susto em grande parte da humanidade. Gerou, inclusive, um esforço de tentar com que este cometa seja desviado da Terra e vá para outro lugar, ou exploda. Se esse cometa se chocar com a terra, as indicações dizem que será mais grave do que aquele que há 60 milhões de anos eliminou a vida dos dinossauros. E que dessa vez eliminaria a humanidade inteira. Se isso acontecer, o Futuro morre nesse dia de agosto desse ano do século seguinte ao próximo.
            Será que o fim da humanidade é a morte do futuro? Eu acho que sim. Porque, no dia seguinte ao choque com esse cometa, nada vai mudar no Universo. O Universo não vai nem ao menos tomar conhecimento de que uma insignificante espécie chamada Homem desapareceu. O Cosmo não saberá que tudo o que foi criado pela mente humana terá desaparecido, ou terá, em certa parte, ficando perdido num planeta sem vida ou com pouca vida, certamente, mas sem vida inteligente. O Sol vai continuar a nascer, a Lua vai continuar a rodar em torno da Terra, e todas as  galáxias continuarão se expandindo. Mas, a meu ver, o futuro terá morrido, porque o futuro não é um conceito de tempo físico. O futuro é um sentimento dos homens. O Sol, nascendo, terá um presente na hora em que nascer, no minuto seguinte e no outro minuto, mas não havverá um futuro prevendo que o Sol voltará a nascer no outro dia. Não haverá um futuro prevendo que um outro planeta voltará a se chocar alguns milhões de anos depois. Pois bem, o que quero deixar claro com isso, nas provocações que devem ser feitas dentro da ideia de um pensamento inquieto, é que o futuro não é uma variável física, o futuro é um sentimento humano. E, mais que isso, como segunda parte dessa inquietação que a Universidade de Brasília tende a desenvolver, quero dizer que o futuro não apenas é um sentimento que desaparecerá no momento em que os que têm esse sentimento morrem, como se esse sentimento fosse extremamente recente na espécie humana. Há poucas décadas o futuro já existia, mas na cabeça de poucos. Há alguns séculos ela já começava a nascer, mas na cabeça de ainda menos. E se olharmos mais atrás, há milhares de anos já existiam os Homens, já existia a cultura, mas o futuro não existia. O futuro nasceu em algum momento da História dos homens. Observando os temas do Pensamento Inquieto, veremos que, tirando Marx, que é um nome próprio, é uma pessoa, todos os demais temas já poderiam estar sendo debatidos em uma semana de Pensamento Inquieto na Sorbonne, do século XIII; em Cambridge, do século XIV, nas primeiras universidades latino-americanas do século XVI. Justiça, democracia, rebeldia, todos poderiam, mas duvido que o futuro pudesse ser debatido naquela época. O futuro não poderiam ser debatido porque ele não existia. Podem argumentar: mas alguns físicos pensavam o tempo, e até entendiam e já previam o futuro físico. Mas eles não tinham o sentimento do desejo do futuro.
            Quatro razões impediram o futuro de nascer na Idade Medieval e mesmo no século XVIII, já com o Iluminismo. O primeiro é porque futuro não é um sentimento, mas um desejo; não apenas é uma previsão, mas é uma previsão do bom e do belo. O futuro significa o bom, significa o belo, significa aquilo onde queremos chegar, tanto para nós quanto para uma geração anterior. Pois bem, até o século XVIII havia medo do futuro.
            Segundo, esse futuro era apenas os anos seguintes. Não havia o sentimento de futuro do longo prazo. Todas as utopias escritas, até uma do século XVIII, e só uma, localizavam-se em espaços. Nenhuma se localizava no futuro. O próprio nome utopia vem de uma ideia de lugar, ainda que signifique lugar nenhum. A Atlântida tem um lugar, o Eldorado estava em algum lugar. Todas as utopias eram localizadas em algum lugar, mas ninguém imaginava que o futuro fosse utópico, as pessoas imaginavam que o futuro fosse assustador. A primeira razão, por que não havia futuro, era o medo dele. A segunda, era que não havia prazer em pensar e viver o futuro. O prazer estava no passado. As pessoas curtiam mais o presente ou o passado.
            A sobrevivência, até recentemente – e isso é fundamental para entender nosso tema -, dependia mais das lembranças, das técnicas do passado do que dos sonhos com as possibilidades das técnicas do futuro. Para um camponês sobreviver, ele não tinha de imaginar técnicas futuras, ele tinha de não esquecer as técnicas que seus pais ensinaram. Completamente diferentes, os jovens agricultores dos países ricos, cada vez mais, a partir deste século, buscam esquecer o que aprenderam no passado e buscam sonhar e executar novas formas de sobrevivência, consideradas cada vez mais simples daqui para a frente. Vejam como temos diversas razões que demonstram que não era fácil existir o futuro. Havia medo, não havia prazer, havia uma prisão pela luta da sobrevivência com as técnicas que vinham do passado, e, finalmente, não havia como prever. Era impossível no século passado, mesmo até 1950, 1960 ou 1970, a perfeição da previsão de que um cometa se chocaria com a Terra. O cometa é um pequeno pedaço de pedra, mesmo com 10 Km como tem esse e vai se chocar, nessa imensidão de espaço, com a Terra. Essa previsão, com esta sofisticação, com esta exatidão, seria impossível sem os computadores de hoje. Além disso, sem os grandes telescópios, não seria perceptível. Então, vejam que quatro fenômenos foram superados, quatro características foram superadas para fazer com que o futuro pudesse ser parido nesse processo de evolução cultural. A sobrevivência passou a depender mais do futuro do que do passado, na medida em que a Revolução Industrial começou a oferecer maneiras melhores, mais fáceis e eficientes de produzir, simplificando a luta pela sobrevivência.
            Surgiu um otimismo muito grande em relação ao futuro e o prazer de especular sobre ele. A ficção científica não existia há duzentos anos, ainda que alguns gregos pudessem ter falado sobre haver ou não vida na Lua, se era possível ou impossível ir lá, mas não existia como categoria das artes literárias, ainda que hoje em dia não seja vista como aquelas categorias com mais refinamento literário pelos conservadores.
            A capacidade de prever veio de uma maneira tão radical que se mostrou estúpida; os homens passaram a acreditar tanto em uma tendência, que passaram a ter certeza de que o futuro seria uma maravilha. Surgiu o futurismo e a futurologia: o futurismo com o manifesto de 1907, a futurologia com os trabalhos de matemática nos EUA, a partir das décadas de 1940 e 1947, e sobretudo 1960. Mas um conceito fez o futuro possível, um conceito que se chocava com o passado: o conceito de que o tempo é um processo fluído, o tempo é um rio que escoa, quando antes todos achavam que o tempo era uma coisa que circulava. Um camponês do século passado não conseguia perceber o tempo além das quatro estações. Ele se fechava a cada 365 dias. Mesmo que eles imaginassem o futuro de seus filhos, era um futuro visto na luta pela sobrevivência a cada instante da resistência para não morrer nas guerras, nas fogueiras das inquisições.  Não havia conceito de fluidez, de permanência. O tempo era circular, coisa que acontece até hoje nas culturas primitivas dos índios, dos camponeses dos países sem interligação com o Ocidente. Para os nossos índios, isolados, o tempo era circular, ainda mais se não há prazer em pensá-lo, se a sobrevivência depende do passado, e se não há como prevê-lo. A partir de um certo momento – e isto vem com a Revolução Industrial -, o tempo passa a ser perceptível com a sua fluidez, com a sua permanência. Então, o futuro nasceu aí. O futuro nasceu pelo otimismo, pela previsibilidade; o futuro nasceu pelo sentido do tempo fluindo, e o futuro nasceu porque ele passou a dar prazer ao homem, que passou a dar  muito menos valor ao passado. Até quando se coleciona obras de arte do passado, se visa enriquecer no futuro. O futuro passou a ser o centro, porque o futuro nasceu de uma maneira quase perfeita no final do século passado e no começo deste.
CONTINUA NA PRÓXIMA QUARTA...
Obs.: Os negritos itálicos são os destaques do texto original; os [  ], os negritos e os negritos vermelhos são destaques nossos.


terça-feira, 9 de outubro de 2018

Em tudo a Utopia

Divulgando de Unifreire nº 1


Por Miguel Ângelo
Pobre, despida e só caminha a verdade
            Apreciada só pelos humildes
Tem um só olho, puro e brilhante
            Nasce em mil lugares quando morre em um
Frente à trivialidade
            A leviandade
                        O cinismo
                                   Alçar-se a verdade, justiça e liberdade
                                               Heróis e vítimas de uma civilização
que cria seus meios de sustento
e pouco a pouco sua própria destruição
Pobre verdade
            Abandonada a cada canto
                        por mentiras de poder
recuperada por movimentos populares na sua luta pela justiça
Pobre justiça
            indefesa na sua nudez
                        cega na sua procura de equanimidade
atropelada em cada instante
                        quando não protege a liberdade
                                   Pobre liberdade
                        A perde o pássaro e a árvore
            clandestinamente cortado no bosque
                        avassalada em homens e mulheres
                                   lágrimas em mãos curtidas e esperanças partidas
            um hoje sem futuro esperado
                        Pobre liberdade, justiça e verdade
Senão tivermos uma utopia que as defenda
            Utopia, estandarte de um futuro planetário
utopias que nos molhem cada dia
                        em cada gota
que nos acaricie o rosto
e nos diga que seguimos vivos
                                               a pleno sol.
Retirado de: REINVENTANDO PAULO FREIRE NO SÉCULO 21 - Série Unifreire nº 1 - Ed.L (Editora e Livraria Instituto Paulo Freire), São Paulo, 2008. pp.53-54. Carlos Alberto Tores. Novos pontos de partida da pedagogia política de Paulo Freire.


sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Como o Brasil lida com os direitos humanos?

Divulgando de Carta Capital


Sociedade Ativismo
Como o Brasil lida com os direitos humanos?
por Deutsche Welle — publicado 26/08/2018 16h15, última modificação 26/08/2018 13h35
Percepção de que tais direitos protegem bandidos começou a ganhar força após fim da ditadura.
Fernando Frazão/Agência Brasil
Protesto contra a violência no Rio: dezenas de ativistas dos direitos humanos foram assassinados no Brasil em 2017.
Adotada após a Segunda Guerra Mundial, a Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU é considerada um marco legal na institucionalização desses direitos. Idealizado por representantes das esferas cultural e jurídica, o documento, que completa 70 anos em 2018, tem encontrado forte resistência e gerado debates acalorados no Brasil nos últimos anos.
Segundo uma pesquisa do Instituto Ipsos, realizada no começo de abril de 2018, 66% dos brasileiros acreditam que os direitos humanos protegem mais os bandidos do que as vítimas. Na região Norte, por exemplo, essa percepção alcança 79%.
"Existe uma narrativa construída para distorcer os direitos humanos", ressalta Flavia Piovesan, integrante da Comissão Interamericana dos Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA) e ex-secretária nacional dos Direitos Humanos.
"Sou professora de Direito Constitucional, e minhas aulas sempre começam falando desse preconceito e de como podemos corrigi-lo. É fundamental dizer que direitos humanos são para todos, que dizem respeito a uma vida digna", analisa Piovesan, que também é docente na PUC-SP.
Universal para quem?
Segundo o levantamento do Ipsos, 54% dos brasileiros concordam com a frase "os direitos humanos não defendem pessoas como eu". Para Jurema Werneck, diretora executiva da Anistia Internacional no Brasil, o falho acesso aos direitos humanos gera uma distorção em seu conceito básico de universalização.
"Esses direitos ainda não são uma concretude na vida de cada pessoa, e o Brasil não os realiza como deve. Numa sociedade desigual, onde direitos de todos não são alcançados por todos, quem alcança é um privilegiado. É uma população branca, urbana, que está em grande parte no Sudeste do país", analisa.
Para Maria Laura Canineu, diretora da Human Rights Watch no Brasil, a desinformação em relação ao tema gera conclusões falsas. "Essa falta de compreensão, associada a recentes ataques por parte de líderes autoritários ou grupos que clamam defender a 'maioria', tende a alimentar a noção equivocada de que os defensores de direitos humanos defendem apenas 'minorias' – ou ainda, aqui no Brasil, 'bandidos' – e que, portanto, atuariam do lado destes contra a polícia, por exemplo", diz.
Canineu destaca que defender direitos humanos significa defender o respeito a valores básicos inerentes a todo ser humano, centrados na dignidade, que possibilitem a construção de uma sociedade justa e democrática.
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"Mas significa também denunciar o Estado quando este excede o seu poder e se torna ele o violador dos direitos fundamentais do cidadão, como o direito à vida, à integridade física, a um processo justo e célere, à proteção contra a tortura e a violência, entre outros", aponta.
Para Canineu, ainda há grandes desafios para que esses direitos sejam integralmente implementados e garantidos na prática. "Isso é visto, por exemplo, na segurança pública, em que se verificam altos índices de violência policial, execuções extrajudiciais, encarceramento em massa, presídios superlotados, enquanto tem sido difícil aprimorar investimentos em políticas de segurança efetivas para a população", aponta.
Entre janeiro e setembro do ano passado, 62 ativistas dos direitos humanos foram assassinados no Brasil, de acordo com a Comissão Pastoral da Terra (CPT), em relatório divulgado pela Anistia Internacional.
Direitos humanos e ideologia
A associação entre direitos humanos e impunidade não é uma novidade no Brasil. Segundo Piovesan, a percepção de que esses direitos protegem criminosos surgiu com o fim da ditadura militar, em 1985.
"É a partir do fim do regime militar que se intensifica o processo de deslegitimação de quem defende a bandeira dos direitos humanos", aponta. Um sintoma que pode explicar essa análise, diz ela, está no fato de que o apoio a esses direitos é menor na faixa etária a partir de 66 anos (48%).
Ao analisar o cenário brasileiro, Piovesan salienta que os direitos humanos foram integrados à agenda do Estado apenas após a redemocratização, mas os avanços dos últimos 30 anos são perceptíveis.
"O Brasil percorreu quase 500 anos da sua história sem punir o racismo como crime. Isso veio em 1988, e a lei foi adotada em 1989. O país ficou quase cinco séculos sem punir tortura. É com uma lei de 1997 que passou a fazê-lo, cumprindo a Constituição", completa.
Recentemente, ganhou força o debate de se os direitos humanos se tornaram uma pauta da esquerda. Segundo Canineu, embora em muitos lugares do mundo, e não só no Brasil, a pauta dos direitos humanos seja comumente ligada a grupos alinhados à esquerda, "os direitos humanos representam valores que se sobrepõem à polarização partidário-ideológica".
"Se posicionar contra violações de direitos humanos não é nem deveria ser assumir uma posição de esquerda ou de direita, senão a certeza de que certas práticas são moralmente inaceitáveis", diz.
Eleições podem ser decisivas
O pleito presidencial deste ano pode definir como o Brasil vai diminuir ou aumentar suas ações com o objetivo de universalizar os direitos humanos, dependendo do candidato eleito.
"Você tem um candidato como [Jair] Bolsonaro, que traz uma ideologia carregada de racismo, homofobia, sexismo, e que está com os seus 18% [de intenções de voto]. Isso preocupa", considera Piovesan.
Sem nomear candidatos, Canineu afirma que a Human Rights Watch também vê com preocupação o processo eleitoral deste ano. "Estamos conscientes do ambiente político frágil e da ameaça de fortalecimento de narrativas que defendem a restrição de direitos supostamente em favor de uma dita 'maioria'", afirma.
"Há uma necessidade urgente de fazer com que o tema seja debatido a fundo e com que seja reforçado o compromisso do Estado brasileiro com os direitos humanos", ressalta.
Werneck acredita que os direitos humanos estão sendo contemplados nas candidaturas atuais. "Grupos estão abordando o direito à vida segura, livre de violência. Todo mundo está no debate com as suas visões, nós só precisamos saber entender. A sociedade está demandando e há, de certa maneira, uma resposta, inclusive dos partidos", diz.
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quarta-feira, 3 de outubro de 2018

O ministro Toffoli e suas contradições


Divulgando de Carta Capital...
Boa tarde povo!
Dia de Pensamento Inquieto! Continuamos com os textos anunciados na primeira postagem. Os mesmos serão divididos em várias postagens pra facilitar a leitura.
Obs.: Lembrando que temos uma novidade! Se você estiver sem tempo para ler o texto, a partir de agora disponibilizaremos um link para que você possa ouvir o texto sintetizado em MP3 (Haverá alguns sotaques visto que são sintetizadores estrangeiros)! O(s) Link(s) estará(ão) sempre entre o primeiro e o segundo parágrafo do texto postado.
Degustem!


Sociedade História
Historiador citado por Toffoli rejeita chamar ditadura de 'movimento'
por Carol Scorce — publicado 01/10/2018 18h30, última modificação 02/10/2018 07h54
Em seminário sobre Constituição de 1988, o presidente do STF afirmou que prefere chamar a ditadura civil-militar de "movimento de 1964".
Arquivo Nacional
Ele também afirma que esquerda e direita não têm as mesmas responsabilidades no processo de radicalização que levou ao golpe.
O presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Dias Toffoli, afirmou nesta segunda-feira 1º que não usa, ao falar do período da ditadura civil-militar no Brasil, os termos "golpe" ou "revolução". "Me refiro a movimento de 1964", disse. A fala foi feita em um seminário que tratava dos 30 anos da Constituição de 1988.
Ao falar do período da ditadura militar, Toffoli mencionou o historiador Daniel Aarão Reis. Segundo o presidente do STF, sua pesquisa indicaria que tanto a esquerda quanto a direita conservadora, naquele período, tiveram a conveniência de não assumir seus erros anteriores a 1964, passando a atribuir os problemas aos militares.
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O conceito elaborado por Toffoli nesta segunda-feira não é, no entanto, o mesmo utilizado por sua fonte. O historiador Daniel Aarão Reis, professor e pesquisador da Universidade Federal Fluminense, afirmou, em entrevista a CartaCapital, que chamar a ditadura militar de 'movimento de 1964' é impróprio, assim como igualar "os que lutavam por justiça social com os que queriam eternizar a injustiça social."
Carta Capital: O senhor concorda com a interpretação do ministro Dias Toffoli sobre as responsabilidades das diferentes correntes ideológicas que antecederam o golpe militar de 1964?
Daniel Reis Aarão: Ele (o ministro) cometeu um equívoco. Ele deveria ter citado uma outra estudiosa do assunto, que é a Argelina Figueiredo. Ela fala realmente disso, que a gente (historiadores) chama da doutrina dos dois demônios. Essa doutrina foi criada na Argentina, e atribuía às esquerdas e às direitas as mesmas responsabilidades.
Então seriam dois demônios que a sociedade deveria exorcizar. Essa corrente foi extremamente combatida lá (na Argentina), e está superada. Essa doutrina foi importada para o Brasil, e a Argelina Figueiredo que se incumbiu disso. Ela requentou para o Brasil. Na interpretação dela a radicalização anterior a 1964 deve ser atribuída igualmente às esquerdas e às direitas. Porque foi essa radicalização, segundo ela, que levou ao golpe.
CC: O senhor, como pesquisador, avalia como coerente essa interpretação da história?
DAR: Essa interpretação dos dois demônios eu rejeito categoricamente. Eu não nego que antes do golpe havia um processo de radicalização no Brasil. Mas parece utópico igualar camponeses que lutam pela terra a latifundiários. Me parece impróprio igualar aqueles que lutam por justiça social com os que querem eternizar a injustiça social. Me parece impróprio, em relação à conjuntura anterior a 1964, igualar os marinheiros que queriam ter o direito de voto às oligarquias que não queriam democratizar o voto.
No Brasil, antes de 64, os analfabetos, que eram mais de 50% da população, não votavam. Então, havia um movimento muito grande no Brasil antes de 64 por justiça social e democracia, e comparar esses (a esquerda) aos que recusavam a democracia me parece um procedimento vesgo, que o ministro Toffoli teve a infelicidade de atribuir a mim.
CC: É correto chamar o período da ditadura militar de movimento de 64?
DAR: Foi muito infeliz da parte dele dizer que abandona a terminologia ditadura, que expressa perfeitamente o estado de exceção que se passou no País, pra assumir um outro conceito. Vindo da parte de um juiz, presidente do STF, é uma coisa que provoca espanto. Eu estou estarrecido de ver um juiz, que deveria ser o guardião da lei, relativizando o desrespeito à lei.
CC: O senhor avalia, então, que é ruim para a história um autoridade jurídica assumir esse tipo de conceito.
DAR: Devemos lembrar, para desgraça nossa, que na época de 64, o então presidente STF, ministro Ribeiro da Costa, sem consultar seus colegas, apoiou o golpe de 64. Então o ministro Ribeiro da Costa foi cúmplice do golpe. Fato lamentável para a tradição jurídica brasileira. E é uma pena que o ministro Toffoli, de alguma maneira, recupere essa tradição triste que foi assumida pelo Ribeiro da Costa na época. Depois o Ribeiro da Costa entrou em conflito com a ditadura, mas ai já era tarde. Acho que hoje muitos estão namorando a hipótese de uma nova ditadura, e depois irão se arrepender, mas ai também será tarde.