Retirado de: BBC News Brasil
O
renomado neurocientista que não acredita no livre-arbítrio: 'Somos a soma do
que não podemos controlar'
Robert
Sapolsky é professor de biologia e neurologia na Universidade de Stanford, nos
EUA.
Article
information
- Author,
Margarita Rodríguez
- Role,
Da BBC News Mundo
- 27
fevereiro 2024
Em uma sociedade construída em torno da ideia de
que as pessoas deveriam se sentir culpadas pela falta de controle sobre si
ou outras coisas, se dar conta de que talvez não exista o livre-arbítrio pode
ser um pensamento libertador.
É isso que pensa o neurologista americano Robert
Sapolsky, professor de Biologia e Neurologia da Universidade de
Stanford, nos EUA. Para ele, o livre-arbítrio - fazer escolhas por vontade
própria, sem qualquer influência - é uma ilusão.
Considerado um dos cientistas mais venerados da
atualidade pela revista New Scientist, Sapolsky passou três décadas estudando
babuínos selvagens no Quênia, o que lhe permitiu descobrir interações sociais
complexas.
Suas pesquisas ajudaram a compreender aspectos do
comportamento humano e o impacto do estresse na saúde.
Mas sua posição é minoritária entre pensadores
contemporâneos.
Sapolsky é autor de vários livros, entre eles de Comporte-se:
A biologia humana em nosso melhor e pior (pela Companhia das Letras) e de Determined:
A Science of Life Without Free Will (Determinado: A ciência da vida sem
livre arbítrio, em tradução livre), lançado no final do ano passado nos EUA
e ainda sem edição em português.
No livro mais recente, Sapolsky afirma que
"detrás de cada pensamento, ação e experiência há uma cadeia de causas
biológicas e ambientais, que se estende desde o momento em que surge o neurônio
até o início de nossa espécie e mais além. Em nenhuma parte desta sequência
infinita há um lugar onde o livre-arbítrio pode desempenhar um papel".
Sapolsky conversou com a BBC News Mundo, serviço em
espanhol da BBC, sobre o livro.
O que é livre-arbítrio?
Segundo o pesquisador, a melhor forma de explicar o
livre-arbítrio é explicando o que não é livre-arbítrio.
"É onde as pessoas cometem o maior erro.
Circunstâncias em que tomamos uma decisão existem todos os dias, por exemplo,
onde escolher o que comer. Mas não é disso que falamos quando falamos em
livre-arbítrio", explica.
"Para tomar uma decisão, estamos conscientes,
temos uma intenção e agimos em conformidade. Sabemos qual será o resultado
provável, sabemos também o que temos ou o que não temos que fazer, temos
alternativas e, para a maioria das pessoas, intuitivamente isso seria ter
livre-arbítrio."
"Nos Estados Unidos, todo o sistema jurídico é
baseado na ideia de que as pessoas têm escolhas e, conscientemente, poderiam
ter tomado outra decisão."
Mas, segundo Sapolsky, sua perspectiva vai muito
além disso.
"Como você se tornou o tipo de pessoa que
tende a ter esse tipo de intenção ou a tomar certo tipo de decisão? Como isso
aconteceu? E aqui é onde o livre-arbítrio simplesmente não existe, aí é onde
ele evapora."
Outra área onde as pessoas tendem “emocionalmente e
intuitivamente” a ver o livre-arbítrio está em grandes conquistas, diz
Sapolsky.
Por exemplo, quando você olha para alguém que
talvez não fosse tão talentoso em determinadas áreas e, ainda assim, com muito
trabalho e autodisciplina, se destacou.
"Quando a pessoa poderia estar curtindo a vida
com os outros, ela ficou estudando. E isso é muito inspirador. Talvez ela não
tivesse uma ótima memória ou uma grande mente lógica ou analítica, mas teve
muita tenacidade."
Quando alguém tem muito talento mas os outros
consideram que a pessoa “os disperdiçou”, também tendem a pensar em
livre-arbítrio - a pessoa teria escolhido não agir.
“Essas são duas áreas onde as pessoas simplesmente
decidem que é onde está o livre-arbítrio, mas ele não está lá. Acho que não
está em lugar algum.”
Quais os
fatores que nos levam a tomar as decisões que tomamos?
Determinismo
Sapolsky propõe que quando o nosso cérebro gera um
comportamento particular, ele é determinado por algo que aconteceu antes, que,
por sua vez, é determinado por algo que ocorreu antes disso, numa longa cadeia.
“Para mim, é como se cada momento fosse resultado
do que veio antes”, afirma ele, explicando o que é determinismo. “Este é um
mundo em que não há nada que aconteça sem explicação, sem um precedente.”
“O que aconteceu, aconteceu por causa do que
aconteceu antes e isso se aplica a todos os mecanismos que nos tornam quem
somos.”
Sapolsky parou de acreditar no livre-arbítrio
quando era adolescente.
“Tem sido um imperativo moral para mim ver os
humanos sem julgá-los e sem acreditar que alguém merece algo especial. Isso é
viver sem odiar e sem acreditar que mereço privilégios”, escreve ele no livro.
“Se você aceita que não existe livre-arbítrio, que
somos nada mais nada menos que a soma da biologia e do meio ambiente, se você
realmente acredita nisso, a culpa e a punição não fazem sentido, a menos que
você os entenda em termos instrumentais”, explica ele à BBC News Mundo.
Por exemplo, diz ele, se pegarmos uma lesma-do-mar
do gênero Aplysia, um molusco que tem sido objeto de extensos estudos no campo
da neurociência, sabemos que se batermos na cabeça dele, isso causará uma
reação.
“Você faz isso para entender o comportamento. Você
não bate nele porque acha que ele é mau”, explica.“Da mesma forma, elogios e
recompensas não têm sentido em si mesmos. Eles podem ser usados
instrumentalmente, mas não são virtudes em si.”
“E se for esse o caso, ninguém tem o direito de ter
as suas necessidades consideradas mais importantes do que as necessidades dos
outros. E odiar alguém faz tanto sentido quanto odiar um coronavírus.”
“Algo precisa ser feito sobre o fato de que todos
nós fomos criados para aceitar que algumas pessoas são tratadas muito melhor do
que outras por coisas sobre as quais elas não tiveram nenhum controle”, afirma.
"Da mesma forma, alguns são tratados de forma
muito pior por coisas sobre as quais não tiveram controle. O maior problema é
que tratamos isso com naturalidade na maior parte do tempo."
Teias de Aranha
Na discussão sobre o livre-arbítrio, há uma
pergunta que, para Sapolsky, é fundamental: de onde veio a intenção (para fazer
determinada coisa)?
Não se fazer essa pergunta, diz ele, é como
acreditar que tudo o que é preciso para avaliar um filme é ver apenas os
últimos três minutos.
Para me explicar o significado dessa pergunta, ele
pega uma caneta e diz que está fazendo esse ato conscientemente, que o ato de
segurá-la é “cheio de intenção”.
“É inconcebível para mim imaginar todas as coisas
que levaram a este momento, seria muito difícil fazê-lo”, afirma.
Além disso, “nossa intenção ao fazer algo parece
tão poderosa que nem imaginamos que não poderíamos ter essa intenção se
quiséssemos”.
Ou em outras palavras: nosso desejo de fazer algo é
tão forte que não passa pela nossa cabeça que não podemos não desejar o que
desejamos.
O pesquisador descreve outro cenário: imagine um
homem que assassinou um grupo de pessoas.
Aos 10 anos, esse indivíduo havia sofrido um
acidente de carro que destruiu 75% de seu córtex frontal, área do cérebro
importante para a interpretação, expressão e regulação das emoções.
“Por que essa pessoa se tornou quem é? Um único
acontecimento [o acidente] foi como um terremoto” em sua vida, diz ele.
"Agora olhe para o resto de nós. Imagine que existem milhões e milhões de
teias de aranha invisíveis, pequenos fios, que trouxeram você até este momento
e fizeram de você quem você é."
O acidente de trânsito no caso do criminoso ou a
altura do corpo de um astro do basquete são “causas únicas” e são “muito fáceis
de entender”.
Os problemas surgem – explica o especialista –
quando abordamos a “causalidade distribuída”.
“Quando falamos sobre quem somos, na maioria dos
casos são milhões desses pequenos fios invisíveis juntos, isso é tão
determinístico quanto ter seu córtex frontal destruído em um acidente de
carro."
O argumento científico
Sapolsky explica que qualquer neurônio (célula do
sistema nervoso) funciona como resultado do que os outros milhares de neurônios
ao seu redor estão fazendo.
"Ele poderia ter conexões com até 50 mil
outros neurônios, não é uma ilha. O que quer que esteja fazendo se enquadra
nesse contexto."
Como argumento em defesa de sua tese, ele pede que
lhe seja mostrado “um neurônio (ou um cérebro) cuja geração de comportamento é
independente da soma de seu passado biológico”.
O professor nos convida a pensar na nossa
adolescência, na nossa infância, em quando estávamos no útero.
"Os seus neurônios são compostos pelos genes
com os quais você começou quando era uma célula."
E muito antes disso: "Os seus antepassados eram
pastores ou agricultores? Viveram numa floresta tropical ou no deserto? Porque
isso será transmitido século após século e o trabalho de cada geração é
esculpir o cérebro dos seus filhos para que eles tenham os mesmos valores
culturais".
O mesmo vale para outros mecanismos de
funcionamento do corpo.
O trifosfato de adenosina (ATP), por exemplo, é uma
molécula que as células utilizam para obter energia.
Se você não dormiu bem na noite passada ou não
comeu, certas células apresentarão menos ATP do que o normal.
"Anos atrás, meu laboratório mostrou que se
você estiver sob estresse enquanto dorme, acumulará menos ATP no cérebro do que
se não estivesse estressado."
Outro exemplo são os hormônios. Se tivermos um
nível mais elevado de um determinado hormônio, isso pode influenciar se, por
exemplo, nos sentiremos mais irritados ou mais abertos a correr riscos, e
também o quão sensível será o nosso cérebro a determinados estímulos externos.
Sapolsky nos lembra que os hormônios regulam os
genes e que, por sua vez, os genes têm muito a ver com a encruzilhada da tomada
de decisões.
Com tudo isso em mente, ele coloca o desafio: “vá e
mude todos esses fatores. Se o neurônio fizer exatamente a mesma coisa, isso é
livre-arbítrio."
"Mostre-me que seu cérebro apenas produziu um
comportamento independente de tudo isso, e se você fizer isso, estará
demonstrando livre-arbítrio", diz ele.
Para o neurobiólogo, no século 21 temos muito
conhecimento científico que tem mostrado o quão importante são os genes, a
parte hormonal, o meio ambiente como peças que, juntas, nos tornam quem somos.
“Não me cabe provar que livre-arbítrio não existe.
Acho que o ônus da prova recai sobre as pessoas que insistem que existe
livre-arbítrio”, diz ele. "Mostre-me hormônios que fazem o oposto do que
normalmente fazem. Mostre-me que você acabou de mudar sua sequência de DNA.
Faça isso e depois vamos falar sobre livre-arbítrio."
Visão pessimista
Mas essa não seria uma visão um pouco pessimista?
Afinal, qual seria o sentido de nos esforçarmos para tomar as melhores decisões
se, no final, como ele diz em seu livro, “não somos nem mais nem menos do que a
soma do que não podemos controlar”: a nossa biologia, o nosso ambiente e a
interação entre os dois.
"Penso que é totalmente pessimista",
responde, explicando por que acha não ser a pessoa certa para responder a essa
pergunta.
"Porque tive sorte na vida, as coisas correram
bem para mim por motivos que não controlo.”
Ele afirma que muitas pessoas não tiveram a mesma
sorte e que a culpa não é delas ou por que lhes falta autocontrole.
“Para a maioria das pessoas, isso deveria ser uma
ótima notícia, porque é toda uma sociedade que foi construída em torno da ideia
de que você deveria se sentir muito mal consigo mesmo ou com coisas sobre as
quais não tem controle”.
Na verdade, ele acredita que a ideia de que não
somos os donos do nosso destino pode ser uma visão bastante “libertadora e
humana”.
Reações
Embora ao longo da história tenha havido alguns
céticos do livre-arbítrio, também há muitos que, dentro e fora da academia,
defendem a sua existência.
O livro de Sapolsky gerou reações distintas.
Adam Piovarchy, pesquisador da Universidade de
Notre Dame, escreveu um artigo no site de notícias científicas The Conversation
intitulado: "Professor de Stanford diz que a ciência prova que o
livre-arbítrio não existe. Veja por que ele está errado."
Piovarchy sustenta que Sapolsky comete o erro de
assumir que as questões sobre o livre-arbítrio “são respondidas simplesmente
observando o que a ciência diz”, e ele acrescenta que o livre-arbítrio é também
uma questão metafísica e moral, algo que os filósofos vêm estudando há muito
tempo.
John Martin Fischer, filósofo e professor da
Universidade da Califórnia, especialista em livre-arbítrio, também questiona a
abordagem do neurocientista.
“Sapolsky deseja abrir nossos olhos para o que ele
considera nossas falsas crenças de que somos livres e moralmente responsáveis,
e até mesmo agentes ativos, três aspectos centrais e fundamentais da vida
humana e de nossa navegação através dela”, escreveu Fischer em uma resenha
publicada pela Universidade de Notre Dame. Segundo ele, o cenário é muito
diferente se o problema é abordado pela perspectiva da filosofia. “A ciência,
claro, é relevante; mas isso não torna o livre-arbítrio uma questão
científica.”
Sapolsky não vê as coisas dessa forma: “de certa
forma, só a ciência tem algo a dizer sobre isso”, ele me diz, pois é o que nos
ajuda a “entender como você se tornou a pessoa que é agora”.
Para o escritor Oliver Burkeman, o autor demonstra
em sua obra que enfrentar a inexistência do livre-arbítrio “não precisa nos
condenar à amoralidade ou ao desespero”.
Em resenha do livro, publicada no jornal britânico
The Guardian, Burkeman afirma que quando o cientista aborda como deveríamos
viver sem livre-arbítrio, sua “visão de mundo humanista vem à tona”.
“Alguns argumentam que perceber que nos falta
liberdade pode nos transformar em monstros morais. Mas ele argumenta de forma
comovente que é na verdade uma razão para viver com perdão e compreensão, para
ver 'o absurdo de odiar alguém por qualquer motivo’.”
Keiran Southern escreveu no jornal The Times que
"se as ideias de Sapolsky fossem amplamente aceitas, elas levariam a
mudanças sociais profundas, principalmente no sistema de justiça
criminal".
Talvez Sapolsky queira convencer de que o
livre-arbítrio não existe, mas se não conseguir, pelo menos convida a pensar
que é possível que haja menos livre-arbítrio do que se supõe.
“Já sabemos o suficiente para compreender que o
número infinito de pessoas cujas vidas são menos afortunadas que as nossas não
merecem ser ignoradas”, escreveu o cientista.
Tópicos relacionados